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sábado, 17 de abril de 2010

Verdades consolidadas, por Luiz Henrique da Silveira*

A crônica histórica consolidou a versão de que Cristóvão Colombo foi original na esperteza de pôr o ovo em pé, para convencer os monarcas espanhóis de que era possível chegar às Índias velejando na direção contrária das rotas conhecidas.

Na verdade, Colombo apenas copiou a esperteza de quebrar, levemente, a extremidade do ovo para afirmar que poderia colocá-lo de pé. Assim como não foi Graham Bell quem inventou o telefone, mas o coreógrafo italiano Antonio Meucci, também não foi o navegador genovês quem, por primeiro, fez aquela proeza.

A história do ovo em pé tem a ver com a construção de uma das maiores obras-primas da humanidade. Falo da Igreja Santa Maria Del Fiore, obra única, incomparável, da arquitetura renascentista. Ela é a joia arquitetônica que atrai milhares de turistas a Firenze, extasiados com a beleza marmórea de suas paredes externas, e com outra obra inexcedível: a bela cúpula, que, embora um pouco menor, é mais bela do que a que Michelangelo concebeu para a Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Aliás, Michelangelo usou os acertos da Cúpula de Bruneleschi para construir a sua.

Arnolfo Di Cambio é uma grande personalidade florentina, cuja notável criatividade ficou esmaecida diante de tantos gênios contemporâneos que viveram em Firenze na sua época, como Petrarca, Bocaccio, Donatello, Paolo Uccello, Bramante, Michelangelo, Cellini, Maquiavel e tantos outros.

Foi ele quem fez o projeto da famosa igreja florentina. Mas não foi ele quem fez a inédita façanha de pôr o ovo em pé.

Quem a fez? Mais adiante eu esclareço.

Havia, naquela época, início dos anos 1400, dois famosos ourives e relojoeiros em Firenze: Lorenzo Ghiberti e Fillippo Brunelleschi. Ao primeiro, devemos as deslumbrantes portas de bronze do Batistério; ao segundo, a realização da famosa cúpula de pedra.

Bruneleschi, a quem se atribui a invenção do relógio-despertador, perdeu, em 1402, para Ghiberti, a execução dos altos-relevos brônzeos, pela decisão de 36 membros de uma comissão de notáveis florentinos. Dezesseis anos depois, enfrentou outra comissão, disputando, com o mesmo Ghiberti, a realização da cúpula.

Seu projeto era original: não utilizaria madeira. Toda a alta cúpula seria feita de pedras, que se elevariam para aquelas alturas por uma máquina espetacular, que ele próprio, engenhosamente, criara. Era um molinete gigantesco, acionado por muitas juntas de boi, que utilizava um fio de aço, com 182 metros de comprimento, para alçar pedras de mais de 700 toneladas.

Quando membros do júri disseram que isso seria impossível, ele entregou-lhes um ovo, pedindo que o pusessem de pé, exatamente como se atribui a Colombo. Os jurados tentaram, tentaram e não conseguiram. E disseram a Filippo Bruneleschi que seu projeto era tão inviável quanto colocar o ovo na vertical.

Espertamente, Bruneleschi o colocou, e ganhou a obra, que foi inaugurada 15 anos depois, no dia 30 de agosto de 1436.

Quando se fala no episódio do ovo em pé, fala-se no “ovo de Colombo”. Mas devia-se dizer: “O ovo de Bruneleschi”. O ineditismo do “ovo de Colombo” é uma “verdade” consolidada que precisa ser desmentida, recontada.

*Ex-governador do Estado

Fonte:Jornal A Notícia(18/04/2010)


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