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sexta-feira, 10 de julho de 2009

Novos e velhos bárbaros,por João Fábio Bertonha

O crescente número de imigrantes latinos nos Estados Unidos tem levado alguns setores conservadores a comparar a situação de seu país com a do Império Romano em sua fase final Uma das maiores tentações para quem olha o passado é fazer analogias ou comparações, buscando, no já vivido, uma lógica ou padrão que permita a compreensão do momento presente. É o que acontece hoje nos debates entre americanos que discutem se o seu país é ou não um império. Nesses debates, o Império Romano é apresentado como o exemplo-chave a ser estudado para evitar que o destino de Roma seja seguido por Washington. Assim, boa parte da direita americana olha para o cenário do seu país com preocupação ao identificar nele sinais de repetição do processo que levou ao fim do Império Romano, há mais de mil anos, em decorrência da invasão de povos estrangeiros. É claro que cada setor ou pessoa dentro dessa direita olha para o passado e o avalia conforme suas próprias crenças ou interesses, mas todos vêem na situação atual uma possibilidade de repetição da história. A direita religiosa, por exemplo, tende a ver a queda do Império Romano como um efeito, acima de tudo, da decadência moral que estaria se repetindo na sociedade americana, prenunciando o colapso final. Uma das analogias mais fortes, contudo, é a que compara os imigrantes estrangeiros atuais aos bárbaros do passado. Lá fora estariam as hordas violentas, miseráveis, numerosas e prontas a forçar sua entrada no interior do império, identificado com a civilização, a democracia, a riqueza e a prosperidade. Na Europa, esse “outro” bárbaro é o muçulmano. Nos EUA, em boa medida, são os latinos e, especialmente,os mexicanos. Alguns autores chegam a difundir a idéia de que estes estariam querendo reconquistar os territórios perdidos em 1848 por meio da imigração maciça para o Texas, Califórnia e outras regiões próximas. Já outros, como Samuel Huntington, acreditam que o problema é a impossibilidade de assimilar os latinos, dado que sua cultura seria estranha e eles estariam chegando em número exagerado. A analogia que se constrói é clara. Os romanos não teriam conseguido deter o influxo pacífico e, posteriormente, violento dos bárbaros, e acabaram destruídos. Caberia aos ocidentais, especialmente aos americanos, aprender com esse erro e evitar que o fenômeno se repita, mantendo a vigilância nas fronteiras. Essa analogia não se sustenta, contudo, historicamente. A migração latina para os EUA está, com certeza, transformando o país, que, em 50 anos, poderá ter um quarto da sua população com origens hispânicas. Como aconteceu com tantos outros povos, porém, os imigrantes latino- americanos acabarão ao mesmo tempo sendo assimilados e transformando a cultura dominante. É quase caricatural associar os mexicanos que chegam em busca de trabalhos humildes com conquistadores bárbaros prontos a invadir o império. Analogias e comparações podem ser excelentes meios de compreender a história, mas respeitar os seus limites é tarefa fundamental. Autor: João Fábio Bertonha é doutor em história pela Unicamp e professor da Universidade Estadual de Maringá. É autor de A imigração italiana no Brasil (Saraiva, 2004), entre outros livros

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