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sexta-feira, 23 de maio de 2014

O suicídio é o maior produto de exportação do Japão? Notas sobre a cultura de suicídio no Japão

Por KAYOKO UENO
Kayoko Ueno é doutora em Sociologia, e atualmente é professora de Sociologia na Universidade de Tokushima, Japão

 [Tradução: Eva Paulino Bueno]

No ano 2004, quase nenhuma semana transcorreu sem alguma notícia sobre as bombas suicidas dos muçulmanos no Iraque ou Palestina, ou em Chechênia. Nós, os japoneses, vivemos em uma sociedade rica e geograficamente afastada dos acontecimentos no Oriente Médio e na Rússia, e muitos de nós vemos estas notícias das bombas suicidas como uma coisa estranha, ou como um jogo de vídeo game. Por outro lado, há alguns japoneses, especialmente os que são da geração que passou pela guerra, que vêem as notícias de forma diferente, traçando a figura dos bombardeiros suicidas aos “Kamikazes” do Japão, aqueles esquadrões de ataque aéreo do fim da segunda guerra mundial. De fato, um de meus colegas mais velhos outro dia veio conversar comigo, apontou para um item destes nas notícias, e sussurrou, melancolicamente, “essa é uma invenção japonesa.”
A sociedade japonesa já há muito tempo fornece materiais únicos para estudos sociais sobre o suicídio. Primeiramente, isto pode ser causado por causa do que se crê que é a nossa forma peculiar — de acordo com os observadores ocidentais-- de cometer o suicídio, tal como, por exemplo, o Hara-kiri ou o Shinjyuu. O Hara-kiri era um privilégio das classes superiores, e concedido somente aos samurais (guerreiros) para protegê-los de serem executados por inimigos. Já o Shinjyuu, a forma de suicídio cometida entre pessoas íntimas, era mais comum entre os  plebeus. Esta última forma de suicídio ia desde o suicídio de amantes, do qual desenvolvemos um gênero literário — tal como o que se encontra nas peças de kabuki de Monzaemon Chikamatsu, o mais famoso escritor de peças para kabuk — até outros suicídios por familiares tais como o boshi-shinjyu (suicídio de mãe e filho/a), o ikka-shinjyu (o suicídio de toda a família), os quais ocorriam em todas as classes sociais. Ao mesmo tempo, antes da emergência moderna dos problemas de abuso de crianças e de velhos no Japão por volta de 1990, nós temos narrado o tipo de suicídio familiar de forma não-criminalizada, com a ausência de punições para quem teve a idéia do suicídio, porque, de todas formas, esta é a pessoa  que mata toda a família, incluindo a criança desprotegida, os pais velhinhos, e os familiares que estão doentes.
Em segundo lugar, como já foi várias vezes dito, o ato de suicídio japonês é peculiar porque ele em geral é associado a um significado de valor e vingança. O suicídio tem uma associação de larga data com a salvação do nome ou fama da pessoa ou da família. A análise do suicídio tem sido considerada como um passo importante na compreensão da cultura, sociedade, e povo japonês. Entre os que foram fortemente levados por este tipo de motivação está, por exemplo, a antropóloga cultural americana, Ruth Benedict. No seu livro clássico sobre o Japão da ocasião da guerra, The Chrysanthemum and the Sword—O crisântemo e a espada — ela analisa características do comportamento japonês.
De acordo com Benedict, os japoneses, que não têm nem uma bússola interior forte nem o sentimento cristão da culpa, estão fortemente inclinados a salvar seu nome, ou mesmo a fama da nação, através do suicídio (Benedict, 1954). Similarmente, Emile Durkheim, o francês fundador da sociologia profissional moderna, é também conhecido por estudos sobre o suicídio, em parte referindo-se ao ritual da auto-imolação através do corte do ventre observado no Japão. De acordo com ele, o Japão é o tipo de sociedade onde existe prestígio social associado ao suicídio, e a recusa desta honraria tinha efeitos similares aos da punição real (Durkheim, 1952).
Por outro lado, o que deveria ser igualmente ou talvez ainda mais enfatizado neste contexto é que os japoneses, e não os observadores ocidentais, foram os que reconheceram e mais efetivamente utilizaram esta associação: o suicídio e o ethos japonês. Maurício Pinquet, o autor de “La mort voluntaire au Japon” — “A morte voluntária no Japão” — exemplificou a identidade cultural japonesa através da análise da “morte voluntária,” mas nunca deixou de ressaltar que a frase “Nação do suicídio” foi primeiramente uma invenção japonesa nos últimos anos da década de 50 (Pinguet, 1984).
O Japão fazia propaganda do suicídio, de certa forma  encorajando seus membros a cometer atos suicidas, ao implantar vocabulários relacionados ao salvamento da fama, para impedir uma possível rebelião contra o governo. A figura do Kamikaze foi idealizada para glorificar a guerra. É importante lembrarmos que, antes de a Toyota, a Mitsubishi, e outras companhias japonesas serem criadas e transformadas em representantes do poderio e capacidade japoneses, entre outros fenômenos que atestavam a nossa “macheza” estava a nossa capacidade de cometer o suicídio. Assim, o suicida funcionava como uma “bala humana” usada contra o inimigo, não somente metaforicamente mas no sentido literal da palavra. Assim também funciona a resistência no Iraque em Israel. Onde quer que exista escassez de armas, ou de outros produtos manufaturados para exportar,os recursos humanos se tornam no substituto ideal.
Visão estatística: o suicídio como uma questão de gênero
Já que o suicídio está bem incorporado nos padrões comportamentais japoneses, a prevalência do suicídio não é assunto negligenciável. As últimas estatísticas da Agência de Polícia Nacional Japonesa diz que o número em 2003 chegou a 34.427 (27,0 por cada cem mil habitantes). Para cada cem mil pessoas, no ano 2000, a taxa no Japão foi de 34,1, comparado a 10,4 nos Estados Unidos, e 4,1 no Brasil. De acordo com o Ministério da Saúde e do Trabalho Japonês, depois da segunda guerra mundial, o Japão passou por três ondas de suicídio. A primeira onda teve seu ponto mais alto em 1958, com 23.641 mortes; a segunda alcançou o máximo em 1986 com 25.667 mortes. Atualmente, estamos no meio da terceira onda, que começou em 1998. Estas ondas são observáveis não somente em termos do número, mas também em termos da taxa por cada cem mil habitantes.
A alta taxa de suicídio no Japão também tem sido assunto de muitas discussões. Muitas coisas foram observadas em relação a estas estatísticas, mas as características do gênero são particularmente merecedoras de nota. As estatísticas de suicídio claramente mostram que os homens cometem mais suicídio que as mulheres, e esta característica está sendo acentuada ultimamente. De fato, as duas últimas ondas foram quase que totalmente resultantes do aumento do número de suicídio pelos homens. Em 1980, a taxa de suicídio (o número de suicídios para cada cem mil habitantes) foi de 22,9 para os homens, e 13,3 para as mulheres. Esta taxa passou para 40,1 e 13,5 respectivamente em 2003.
Por que os homens cometem mais suicídio que as mulheres? Seria porque, como Durkheim escreveu, os homens são mais excessivamente auto-reflexivos, ou mais angustiados por necessidades ilimitadas e com menos forças regulatórias exteriores, ou, talvez simplesmente porque eles estão menos envolvidos na sociedade? (Durkheim, 1952) Suas hipóteses podem ser ainda relevantes no Japão contemporâneo. Entretanto, em certa medida, a taxa mais alta de suicídio entre os homens se deve a diferentes papéis e expectativas sociais designadas a eles.
A divisão por idade quanto à taxa de suicídio entre homens e mulheres mostra como os papéis dos dois gêneros tem uma parte importante na explicação. Homens de 50-64 anos, especialmente de 55 a 59, têm a taxa mais alta de suicídio. Mas este é um desenvolvimento bem recente, que não se observa entre as mulheres. O fato que o número de suicidas está aumentando entre homens de meia idade com problemas financeiros ressalta a responsabilidade masculina de manter a sua  família, e algumas vezes os seus empregados. Esta é uma realidade ainda mais pungente em dias de dificuldades econômicas. Alguns suicídios são como uma tentativa, por parte dos suicidas, de conseguir dinheiro do seguro de vida para sua família. Um fenômeno que tem sido observado é que um dos padrões mais comuns em suicídios é que eles ocorrem quando o período de carência do seguro termina. Por outro lado, as mulheres mais ou menos na mesma faixa etária vêem seu papel relacionado com a responsabilidade de cuidar dos membros da família. A taxa de suicídio de donas de casa sempre foi muito baixo, e continua sendo. Entretanto, a taxa de suicídio entre as mulheres aumenta à medida que elas envelhecem.
A diferença de gênero na taxa de suicídio tem sido usada para documentar o tratamento injusto que os homens recebem, e para diminuir a força das denúncias das feministas que falam da opressão da mulher. Mas esta taxa também pode ser usada para substanciar a permanência dos padrões do gênero ditados pelo patriarcado. O fato que homens cometem suicídio mais que as mulheres revela uma família do tipo paternalista, em que quem ganha o pão, quem sustenta a família, está mais em risco, especialmente com o colapso do sistema de emprego vitalício.
O novo fenótipo
Porque nós estamos em uma “nação de suicídio”, o assunto do suicídio periodicamente volta à tona, graças à mídia que se aproveita para debater este assunto quando não há outros mais interessantes. Em meados dos anos 80, nós tivemos uma vasta cobertura do suicídio devido ao ijime (ser abusado por colegas mais velhos ou mais fortes) entre crianças de escola. Outras vezes, nós observamos jovens suicidas seguindo o exemplo de seu ídolo depois da cobertura massiva da mídia do suicídio de alguma figura carismática. Toda vez que a imprensa dá cobertura a tais incidentes com detalhadas informações, algumas pessoas imitam o suicídio. É como se as razões e os métodos do suicídio tivessem sido sugeridos pelo discurso da mídia.
E a mesma coisa pode ser dita sobre as reportagens recentes sobre os pactos de suicídio ligados à Internet. Ao navegar pela database do Asahi Shinbun, um importante jornal japonês, usando palavras chave como “internet” e “suicídio”, pode-se descobrir que um incidente específico de pacto suicida primeiro ocorreu em outubro de 2000, mas foi noticiado sob a costumeira manchete de Shinjyuu. Embora as vítimas mal se conhecessem, suas histórias não mereceram a continuação da reportagem em dias subseqüentes. Em fevereiro de 2003, outro pacto suicida foi noticiado, e se tornou um marco para os pactos de suicídio pela Internet no Japão, devido à extensa cobertura jornalística. O artigo falava de um jovem e duas mulheres que se encontraram na Internet, e se mataram com gás, usando “briquetes.” O Asahi Sinbun e outros órgãos da imprensa continuaram fazendo reportagens com histórias novas a cada dia. Alguns outros pactos de suicídio com briquetes ocorreram em março, e foram seguidos por incidentes ocasionais do mesmo tipo até os dias atuais.
Sempre houve pessoas desejando estarem mortas, ou tendo pensamentos sobre a morte voluntária. Mas, antes, ninguém os encorajava diretamente a morrer. Nos meios de comunicação convencionais, se alguém diz ou escreve “eu quero morrer,” a resposta mais provável é “Espere, não morra!” Já na Internet, pelo contrário, qualquer um se sente livre para escrever o que quiser sob um nome falso. No momento em que alguém menciona intenções de cometer o suicídio, palavras inventivas aparecem imediatamente e alcançam o candidato ao suicídio. Palavras e expressões horríveis tais como “você é uma porcaria,” “você está morto,” “você não merece viver,” “o mundo estará melhor sem você” começam a se juntar. Estas frases curtas aparecem do nada, e até começam a percorrer páginas genuínas de consulta. No mundo pós-moderno da Internet, as palavras perdem sua ligação ao sujeito responsável por elas. Portanto, as páginas de suicídio pela Internet estão se tornando um campo fértil para o desenvolvimento de todos os tipos de comunicação negativa. Uma das páginas mais populares para a prevenção de suicídios teve que baixar a regra que os usuários só poderiam participar por no máximo meia hora, pra impedir que as emoções negativas se expandissem.
Também, antes da era da Internet, não havia quase nenhuma oportunidade para as pessoas que estavam contemplando o suicídio se encontrassem com outras pessoas com as mesmas idéias. Agora, encontrar companheiros é muito fácil. Em um minuto, os japoneses podem encontrar termos como “eu também quero me matar,” nestas páginas de suicídio. É um novo fenótipo da cultura do suicídio em grupo, com uma nova ênfase na cessação do sofrimento, do medo, do isolamento. É como se, de repente, o suicídio fosse aceitável, desde que fosse praticado junto com outras pessoas, e sem dor. Também é importante observar que, no discurso da mídia, aqueles que recrutaram companheiros raramente tiveram alguma sanção social.  Provavelmente porque, uma vez que tal ato é considerado suicídio, ele é, por definição, um ato voluntário entre participantes. E mesmo que não seja, uma vez que os participantes estão mortos, quem vai levar a culpa?
Suicídio ou assassinato social?
Por que cometer suicídio? O sociólogo francês Emile Durkheim fez esta mesma pergunta no fim do século XIX, e disse que mesmo no suicídio, considerado o ato mais espontâneo, a sociedade tem a resposta. Não as mentes dos indivíduos afetados, mas o tipo de sociedade a que eles pertencem e as posições que eles ocupam dentro desta sociedade são decisivos (Durkheim, 1960). O fenômeno atual do suicídio no Japão é muito social no sentido mais definido ainda do que nas hipóteses de Durkheim. Primeiro, sociologicamente falando, os vocabulários, motivos e métodos de suicídio são delineados principalmente pela sociedade.  Como o “vocabulário de motivos” do sociólogo americano C. Wright Mills estipula, as razões para uma ação são empregadas no processo de justificativa desta ação frente a outras pessoas e ao próprio indivíduo que a comete. E o vocabulário dos motivos vem da sociedade. O Japão está desenvolvendo um vocabulário de motivos associado ao suicídio, permitindo que as pessoas acreditem que não têm nenhuma outra escolha senão a morte. O suicídio é claramente um ato aceito como o último recurso para resolver problemas ou se livrar deles de uma vez por todas. Mas o Japão, por outro lado, falhou por não desenvolver os motivos para a vida que os membros da sociedade podem utilizar para justificar suas existências. Tais motivos para a vida são absolutamente necessários particularmente nesta era de globalização quando o valor econômico é superestimado e todos podem ser classificados como vencedores ou como perdedores.
Segundo, é aparente que o aumento do suicídio é inseparável da recessão econômica e dos déficits do sistema da previdência social no país. As Estatísticas Vitais do Japão revelam que na última década o número de suicídios está diretamente relacionado ao desemprego: quanto maior o índice de desempregos num ano, mais suicídios ocorrem, e vice-versa. A re-estruturação de companhias, o corte e a diminuição de empresas têm ocasionado um desemprego massivo para aqueles que já não são empregáveis na “nova economia.” Como os bancos japoneses sempre foram cuidadosos ao emprestar dinheiro, as pessoas autônomas que não têm outro lugar onde pedir dinheiro emprestado acabam caindo nas garras dos agiotas. Aqueles que caem nesta armadilha, são então forçados a crer que sua única saída é deixar uma boa soma em dinheiro no seu seguro de vida para ajudar a família enlutada ou os seus empregados.
Então vários estudos estimam o número futuro de suicídios dependendo da taxa de desemprego, mas estes estudos raramente observam a relação entre o déficit do sistema de assistência pública e o suicídio. Entre as nações economicamente avançadas, a porcentagem dos que recebem assistência pública no Japão tem sido baixíssima (1,5% em 2003), devido a uma avara política de assistência pública. Os empregados municipais encarregados deste setor dizem aos que vêm pedir assistência que eles devem fazer todo o possível para se virarem antes de pedirem ajuda. Quanto mais esforço por parte dos necessitados seria suficiente ara satisfazer o sistema? As pessoas abaixo de 65 anos de idade raramente são qualificadas para receber ajuda, apesar do fato que a Lei de Assistência Pública não estipula regulamentação de idade. Aqueles que têm que requerer assistência pública acabam por sentir-se destituídos de status, o que faz a assistência pública uma coisa humilhante. Esta assistência é, supostamente, um dos direitos humanos fundamentais garantidos pela Constituição, que diz o seguinte: “todas as pessoas têm o direito de manter padrões mínimos de saúde e vida cultural. Em todas as esferas da vida, o Estado usará todos os seus poderes para a promoção e a extensão do bem estar, da segurança e da saúde pública.” Será que estas palavras se transformaram em letra morta? Se tal não for o caso, talvez ela tenha sido morta desde o princípio.
Devido ao corrente aumento da taxa de suicídios, embora muitas coisas tenham sido propostas em relação à sua prevenção, todas elas estão mais ou menos sob a política de prevenção relacionada à saúde mental. O lançamento de um sistema de aconselhamento com uma linha direta pode talvez funcionar para algumas pessoas, mas não vai funcionar para aquelas com sérios problemas financeiros. A saúde mental não tem que ver com medida política, mas como a taxa de desemprego vai ser analisada e como uma espécie de rede de segurança vai ser colocada à disposição dos que dela necessitam. É impossível impedir-se suicídios que são induzidos por razões econômicas com a diminuição do orçamento da previdência social. Os empregos com salários decentes para homens e mulheres, assim como um generoso programa de assistência pública podem parecer uma rota indireta, mas este é, na realidade, o caminho mais secular de impedir-se o suicídio.
Sempre foi discutível se as ações dos Kamikazes e o ato de Harakiri deveriam ser considerados suicídios, já que eles eram, na realidade, mortes obrigatórias. O mesmo pode ser dito sobre a atual situação do suicídio no Japão. Os problemas econômicos, a doença, o pessimismo, todos têm feito parte do problema, pelo qual a sociedade é, acima de tudo, responsável. Há uma grande distância entre aqueles indivíduos que têm esperança e perspectivas para o futuro e aqueles que, simplesmente, caem no abismo.

Fonte: espacoacademico.com.br

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