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domingo, 2 de janeiro de 2011

Continuação do texto anterior...

Sobre esse ponto, o Prof. Pierre Bourdier [L’emprise du journalisme. In: Actes de la recherche em sciences sociales. Vol.101-102, mars 1995] afirma que o grau de autonomia de um veículo jornalístico pode ser medido pela parte de sua receita que tem origem em publicidade ou em ajuda do Estado (em forma de publicidade, propaganda ou subvenção). Mais livre será aquele que depender menos do governo e do mercado.

Ora, nos últimos anos temos visto que a circulação de jornais caiu vertiginosamente, tornando-os cada vez mais dependentes de verbas publicitárias privadas e estatais. Da mesma forma, as mudanças na estrutura do mercado têm feito com que o número de periódicos diminua ano a ano, aumentando a dependência dos repórteres com relação aos locais onde trabalham. Outra forma de interferência na prática jornalística, esta muito mais sutil, é o clamor público, que influencia na pauta e no direcionamento das apurações.

Já o imediatismo, a necessidade de noticiar "em tempo real", de preferência antes da concorrência, se por um lado justificou historicamente a existência do jornal, por outro, tornou-se o maior dos desafios enfrentados pelos veículos atualmente.

Códigos de conduta

Os jornais surgiram, dentre outros motivos, para divulgar as novidades (daí o termo news), transformando-se em produto essencial, em um ambiente onde não havia outro modo de tomar conhecimento dos acontecimentos que não fossem os meios informais.

Em tempos de Twitter, Facebook e afins, é cada vez mais difícil encontrar furos de reportagem e matérias exclusivas. [Inclusive, cada vez mais as fontes publicam os furos antes do jornal. Um exemplo é o caso da seleção holandesa que divulgou, pela conta de Twitter de seu treinador, a escalação para a final da Copa do Mundo de 2010 (fonte: http://cbn.globoradio.globo.com/editorias/esporte/2010/07/11/SELECAO-HOLANDESA-DIVULGA-ESCALACAO-PARA-FINAL-PELO-TWITTER.htm, acessado em agosto de 2010)] Mais ainda, na ânsia de publicar rapidamente as informações, os repórteres incorrem, com frequência cada vez maior, em erros primários, tanto de apuração quanto de ortografia.

Dessa forma, se consideramos o repórter como o profissional cuja função é coletar, redigir, editar e publicar informações do cotidiano para a posterior publicação em órgãos de imprensa (qualquer que seja o meio), temos de assumir que:

** Todo repórter defende o interesse do veículo de imprensa onde trabalha;

** O qual por sua vez está comprometido com os interesses do seu público leitor e limitado, em certo grau, pelos interesses de seus principais anunciantes ou investidores;

** Todo veículo de imprensa segue orientação editorial, formal ou não, e, portanto, o repórter deve a ela submeter-se;

** E a orientação editorial não só define a pauta a ser desenvolvida, mas a pauta, em si, é um limitador da atuação do repórter. [Pierre Bourdier diz que a autonomia de um repórter pode ser medida pela: a) Concentração do mercado jornalístico (quanto menos possíveis empregadores, menor a autonomia); b) Linha editorial do jornal (se mais comercial ou mais intelectual); c) Posição dentro do veículo (quanto mais notável ou mais alto na hierarquia, mais importantes são as garantias estatutárias); d) Capacidade de produção autônoma de informação (vários são dependentes viscerais de assessorias ou posições oficiais).]

Logo, pode-se questionar se o trabalho desenvolvido por um repórter, que trabalha em veículos de imprensa, deve ser considerado jornalismo, da ótica do que se convencionou como o código da profissão. [Pode-se argumentar que um repórter trabalhando de casa é mais autônomo ou menos comprometido, mas o limite reside na contradição entre interesse pessoal e interesse público. Até onde um profissional sem independência financeira completa nem proteção institucional ou estatutária pode ser considerado autônomo? Ou quantas Yoani Sánchez e Judith Torrea existem e por quanto tempo elas resistirão?]

Por outro lado, é preciso discutir o que é o assessor de imprensa. Enquanto as definições de jornalismo se situam em âmbito mais mítico/ideológico do que profissional, as que tratam de assessoria de imprensa são excessivamente operacionais e ferramentais, e reúnem conceitos de Relações Públicas, da Publicidade e do Jornalismo.

Segundo a FENAJ [em seu Manual de Assessoria de Imprensa, disponível aqui, em setembro de 2010], a assessoria de imprensa é o "Serviço prestado a instituições públicas e privadas, que se concentra no envio frequente de informações jornalísticas dessas organizações para os veículos de comunicação em geral".

Neste artigo, vamos considerar uma visão mais ampla que a da FENAJ. O assessor de imprensa é, para estes autores, o profissional responsável por estabelecer o relacionamento entre instituições (privadas ou públicas) e veículos jornalísticos.

O profissional de assessoria tem a dupla função de atuar junto à imprensa, identificando informações de interesse na organização onde trabalha, dando visibilidade a seu assessorado e defendendo sua imagem e reputação, e de fazer com que as expectativas e demandas dos jornais tenham voz dentro das organizações.

Para que o relacionamento entre imprensa e assessores se estabeleça, é necessário que repórteres e assessores de imprensa compartilhem:

** Confiança: o repórter tem de considerar a assessoria e a empresa como atores legítimos para que suas histórias e versões tenham credibilidade;

** Linguagem comum: os repórteres, geralmente, não são especialistas em áreas técnicas, assim como o público. Além disso, utilizam termos e jargões próprios, como em toda profissão. O assessor tem de ter a habilidade de ajustar os conteúdos para um registro de linguagem apropriado;

** Ferramentas: há um conjunto de ferramentas de relacionamento, como releases, reuniões, almoços etc., que devem ser bem desenvolvidos para que apresentem resultados.

** Rituais: repórteres e assessores de imprensa desenvolveram códigos de conduta específicos para harmonizar seus interesses, como forma de abordagem, postura profissional, horários e locais de convívio etc.

Briga de irmãos

Por tudo isso, a maioria dos profissionais que trabalham em assessoria de imprensa tem, necessariamente, formação jornalística, seja ela prática ou acadêmica.

Nesse sentido, o melhor assessor de imprensa é aquele que escreve um release eficaz e, não só pelo domínio das ferramentas, mas pelas relações pessoais e profissionais que se desenvolvem ao longo do tempo, consegue fazer com que seu material se destaque entre os milhares enviados às redações todos os dias.

Há ainda um último conceito que deve ser analisado e sobre o qual, para muitos, repousa a maior diferença entre as duas práticas: a ética jornalística. Segundo o argumento inicial, repórteres e assessores teriam éticas distintas por terem objetivos profissionais diferentes.

Esta afirmação remete, na verdade, a uma questão anterior: há éticas particulares ou apenas uma ética geral?

De acordo com o Professor Carlos Nougué [no seminário "Caminhos da filosofia: ética, política e metafísica", no Centro Cultural do Banco do Brasil, em fevereiro de 2009], "existe apenas uma ética e que vale para todos os homens de todas as épocas e lugares; ética geral da qual derivam suas aplicações positivas e práticas. O que não invalida a existência de uma ética jornalística, desde que esta seja uma concretização particular e prática daquela ética geral. "Desta forma, pode-se falar de uma ética própria da profissão de repórter e outra da de assessor de imprensa, se as entendemos como concreções positivas da ética jornalística como um todo, a qual, como vimos, já é uma concreção positiva da ética geral da humanidade."

Considerando esse panorama, vemos que os exercícios da reportagem e da assessoria de imprensa têm mais aspectos comuns do que distintos. As duas práticas derivam de uma mesma matriz ideológica, o jornalismo, e estão sujeitas às mesmas contradições e limites éticos e profissionais.

Há, sem dúvida, diferenças nas abordagens cotidianas. Na busca da notícia, por exemplo, aos repórteres se exige que revelem publicamente todas as informações obtidas. Ao assessor de imprensa, por outro lado, permite-se a omissão de alguns fatos ou dados, no interesse e na defesa do assessorado.

Entretanto, em nenhum caso é permitido faltar à verdade, sob pena de perda de credibilidade e confiança dos leitores ou dos interlocutores.

Conclui-se, portanto, que a discussão entre repórteres e assessores nada mais é que uma briga entre irmãos, que disputam entre si quem é mais legítimo. Repórteres e assessores de imprensa são jornalistas, que se diferenciam, mais do que tudo, pelo local de trabalho, mas que são norteados pela mesma matriz ideológica.

Fonte:www.observatoriodaimprensa.com.br(28/12/2010)

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